E se todos fossemos Ronaldo!?

E se todos fossemos Ronaldo!? É um título que nos pode levar por muitos caminhos. Se todos treinássemos como ele, se todos fossemos dedicados como ele, se todos fôssemos talentosos como ele, disciplinados, planeados, etc.

Não vejo futebol e não percebo nada de futebol, porém, falar de Ronaldo ao dia de hoje é muito mais do que falar de futebol. Falar de Ronaldo é falar na maior e mais poderosa marca de Portugal. Pode até parecer que este artigo não passa de uma opinião pessoal mas, na verdade, todo este meu devaneio futebolístico tem tudo, mas mesmo tudo, a ver com serviço e cultura de serviço. Sei, ao mesmo tempo, que arrisco criticas ou comentários próprios de quem vive o futebol mas este artigo é sobre empresas e as suas culturas.

Ronaldo é um português conhecido e reconhecido no mundo. Solidário com inúmeras causas, é alguém que nos habituou a ser trabalhador, dedicado e sempre com resultados. Alguém que sempre fez justiça à conhecida frase “Hard work pays off” desde logo pelo exemplo que dá de chegar cedo e trabalho duro.

Mas, Ronaldo resolveu, talvez porque possa fazê-lo, conceder uma entrevista onde denuncia uma má gestão e pior liderança. Subitamente, o Ronaldo admirado e que nunca nos deu razões para duvidar dos seus “passos” é criticado por tudo e todos com uma voracidade que me fez ficar agarrada, pela primeira vez, e pelo que percebi talvez a última, aos programas onde comentadores de todo o tipo e género se deliciavam, literalmente, a dizer mal!

“O timing não podia ser pior”; “Não podia nem devia fazer isto!”; “Vai ser muito difícil arranjar um clube!”; “Isto é uma atitude arrogante!” foram só algumas das frases que ouvi da boca dos ditos comentadores, mas, pior que isso, da comunicação social saíam, apenas e só, criticas. Será porque teve a coragem de afirmar algumas verdades que todos sabemos e calamos. “A maioria da imprensa e da comunicação social é lixo” (Cristiano Ronaldo). Com todo o respeito que tenho ao bom jornalismo, tem toda a razão. Ou será porque disse que a empresa onde estava tinha parado no tempo e tinha uma liderança desastrosa?

O tema tornou-se aos meus olhos, talvez porque o vi e ouvi sem a dimensão do futebol, caso de estudo até pelo paralelo que fiz no final da minha TedX talk em 2019.

Como é que um português de sucesso que levou e continua a levar o País ao mundo durante tantos anos, com tantas provas dadas é questionado, incondicionalmente, sem que exista uma única pessoa, que venha a público, a acreditar que o que fez fará algum sentido? Não ouvi um único comentador ou jornalista colocar a hipótese de que estaria a pensar bem. A colocar a hipótese de que teria sido bem aconselhado. Não! Fez asneira, qual miúdo mimado cheio de dinheiro. Sei, porém, apesar de não ter ouvido em primeira mão, que o comentador Pedro Henriques teve a coragem de defender a atitude com uma lógica de atribuir ao Ronaldo a inteligência suficiente para saber o que estava a fazer. Caso para dizer, haja alguém!

Solitária no meu sofá defendi a atitude. Questionava-me, simultaneamente, se tamanho chorrilho de críticas seria inveja ou se seria eu a míope! Ontem, ouvi a notícia de que o clube estaria a colocar a hipótese de ser vendido. Ontem ouvi também a notícia de que o seu contrato tinha sido rescindido com mútuo acordo. O que não ouvi foi o club desmentir tudo aquilo que ele denunciou, bem ou mal. Hoje acordo com a notícia de que o Manchester United está em vias de perder o seu maior patrocinador que garantia 270 milhões de euros por 5 anos de contrato, de acordo com notícia do Desporto ao Minuto, citando o The Telegraph (a notícia refere que a rescisão nada tem que ver com a entrevista).

Foi um ato de coragem que, talvez, só ele pode levar a cabo. E por isso pergunto: “E se todos fossemos Ronaldo?”

O Ronaldo denunciou, publicamente,  uma má gestão e uma má liderança. Denunciou a sua employee experience. Como seria se cada um de nós pudesse, em prime time e em todos os meios de comunicação social do mundo, denunciar um caso semelhante? O líder sem competência para o ser, a empresa que pára no tempo e só pensa em marketing ou publicidade, a comunicação social que mais de metade do que diz é manipulado?

Será que teríamos mais empresas com boa gestão e boa liderança? Será que tínhamos empresas a reter mais talentos?

Ao longo da minha carreira assisti a muitos “Ronaldos” em situações semelhantes. E assisti a esse fenômeno do ponto de vista profissional e do ponto de vista pessoal. Trata-se de cultura de empresa e da impunidade a que assisto, vezes e vezes sem fim, a casos tão parecidos com este.

O que acontece por norma? Alguns desses “Ronaldos” saem da empresa, seguem o seu caminho e a empresa que deixam continua a destruir ou não construir possíveis “Ronaldos” do futuro. Destroem ou arruínam carreiras que poderiam ser brilhantes noutra cultura e com outro profissionalismo empresarial ou atrasam a vida de alguns talentos que, quando saem, têm que começar tudo de novo.

Há uma outra dimensão que acredito valer a pena trazer para cima da mesa. Será que há, na nossa cultura, um “não sei quê” de vontade de desvalorizar ou tentar destruir, à primeira oportunidade, aqueles que dão cartas lá fora? Ou será apenas “coisa do futebol”. Oiço muitas vezes o meu marido afirmar que “o futebol mexe em emoções que as pessoas têm dificuldade em controlar”. Talvez este caso esteja a ser alvo disso, mas, enquanto pessoa desligada do futebol, escrevo sem essas emoções futebolísticas. Escrevo depois de Times Square ter sido invadida com imagens de Portugal e de incentivos à população americana para visitar Portugal. Afinal o turismo é chave na nossa economia. E como chamamos a atenção para o nosso País em pleno “umbigo do mundo”? Com uma chamada! E quem ligava que deixou a praça de “telemóveis ao alto”? Cristiano Ronaldo, claro! Com um simples  “Hi New York! Whats up Times Square? (…) it’s me Cristian Ronaldo…”  a cidade, que nunca dorme, pôs os olhos em Portugal e nas maravilhas que temos por cá, durante muitos e bons minutos. Foi um investimento avultado mas teria valido a pena sem a nossa “imagem de marca”? Ou seria tão impactante?

Defendi e defendo a posição de uma forma racional. Não tinha, nem tenho, quaisquer razões para achar que alguém que nos habituou a ter resultados durante uma carreira brilhante tivesse tido um ato impulsivo, imponderado e prejudicial ao País ou à tão falada seleção.

Não sabemos qual será o nosso resultado e o primeiro jogo acontece amanhã. É também essa uma das razões que me faz escrever hoje! Amanhã, e nos dias seguintes, se ganharmos, o que espero que aconteça, Ronaldo terá pensado muito bem no timing, mas, se perdermos talvez se volte à crítica feroz a Ronaldo.

Termino com a frase que há mais de 2 décadas utilizo: “Vale a pena a ousadia da diferença”. Sim, foi ousado e fez diferente. Porquê? Porque ele é o Ronaldo, nós não!

Quem dera, porém, que todos fossemos Ronaldo nas empresas por onde passamos e nos deparamos com casos tão, mas tão, semelhantes.

Que ganhe a seleção e que a cultura das organizações seja a cada dia menos tabu e mais denunciada. Se esse dia chegar, vamos ter, garantidamente, melhor serviço e pessoas mais felizes.

Viva Portugal 😉

Imagem de capa © https://idsb.tmgrup.com.tr/ly/uploads/images/2022/06/06/thumbs/800×531/210423.jpg?v=165451015

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