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De quem é a culpa?

Uma história de supermercado que poderia ser em qualquer outro lado!

Há uns tempos,  em plena caixa de supermercado de uma grande superfície, eis que me deparo com o seguinte cenário. Estou com as minhas coisas, bastantes, note-se, no tapete rolante. Como sempre gosto de fazer, apressei-me a colocar tudo o que era meu nos sacos, devidamente separados, entre frescos, legumes, congelados e afins… uma mania podem chamar-lhe!

– Credo! Separa isso tudo? – Perguntou a senhora da caixa incrédula como quem me chamava qualquer coisa, mas com um sorriso daquilo a que chamo o falso top service!

– Pois, dá-me jeito, assim quando chego a casa tudo é mais fácil! – Respondi com um sorriso educado e perdoando a sua forma menos simpática de me chamar “arrumadinha”, ainda por cima porque, definitivamente, não sou.

A conta continuou no seu percurso normal, e no registo a que já me fui habituando de quem tem treino de caixa de supermercado. Enquanto as coisas passam, o treino já é tanto que dá para ir deitando um olhinho a quem passa, a quem chega, numa operação quase semelhante à de fazer tricô.

– Espere, espere… essa caixa não é! – Ouço um senhor dizer quando a menina da caixa está a preparar-se para registar uma caixa de plástico que não era minha e sim do cliente seguinte.

– Ora bolas, já ia levar a caixa deste senhor – Respondi com algum humor para ver se de alguma forma alegrava o dia desta senhora visivelmente desanimada ou desinteressada!

– Pois, não tinha separador, e sem separador eu não paro – respondeu a menina que tinha tudo para ser Top Service, menos aquilo que lhe vai na alma, ou no pensamento. Disse-o a sorrir, mas com um grito de “A culpa não é minha” numa voz silenciosa.

– Se o separador não estava aqui como queria que o pusesse? – Responde o senhor já com a alguma idade e visivelmente indignado com aquela necessidade de culpar alguém que não ela própria, aliás, como se alguém estivesse à procura de culpa, num ato tão comum acontecer e tão possível de ocorrer;

– O separador está aqui, lamento se o senhor não viu, ele serve para separar as compras dos clientes e não acontecer isto – responde com o mesmo sorriso de “marionete” e irônico novamente no desespero de “não fui eu! “ A assegurar-se, simultaneamente, de que todos os clientes iriam entender.

Estava incrédula a assistir ao ping pong e com uma vontade desmedida de dizer qualquer coisa, mas confesso que as palavras ou a criatividade de pegar no tema me bloqueou!  Limitei-me a observar a história até ao final.

– Muito obrigado, minha senhora, muito obrigada mesmo por me avisar – responde o senhor, desta vez com voz firme a tocar a revolta e com franca ironia. Estava visivelmente irritado com a batalha tonta desta senhora que resolveu valorizar uma situação, absolutamente vulgar, para descarregar alguma frustração ou outro tipo de revolta que é dela e apenas dela! Podia adivinhar-se no olhar e tom de voz deste cliente uma vontade enorme de dizer qualquer coisa como: “E se estivesse calada!?  Alguém a culpou de alguma coisa? “

– Muito obrigada sou eu!! – Responde a menina num tom que não estou certa de conseguir transmitir por palavras, mas se tivesse que colocar as chamadas “legendas na testa” como tantas vezes digo, ocorre-me um valente “TOMA! – Ganhei! “

Este episódio transportou-me para uma das escolhas Top Service – Renunciar à razão. Estamos a falar de alguém que procurou a razão onde ninguém a quis nem ter nem tirar. Estamos a falar de alguém que, provavelmente, acreditou que ganhou uma “guerra” que só ela quis começar, e que se convenceu que ganhou. E o que ganhou de facto? Nada!

Eventualmente o conhecido alívio temporário de quem consegue a razão, mas nada mais do que isso. Ganhou isso sim, uma fila de clientes num diálogo de olhos e gestos silenciosos encolhendo os ombros num sinal de “não vale a pena!“ reforçando a crença de que servimos mal, quando temos, na verdade tudo, para servir de forma exemplar!

Renunciar à razão é, por isso, uma escolha essencial a um serviço de excelência.

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